Home Data de criação : 07/09/13 Última atualização : 07/10/15 19:32 / 28 Artigos publicados
 

Crônica Sebólica

Na Letra K  (Crônica Sebólica) escrito em quinta 04 outubro 2007 23:11

Foi um dia que lendo Ferreira Gullar, poema “Não Há Vagas” que fui movido a procurar alguma obra de referencia no sebo. Obra que não encontrei, diga-se de passagem. Mas acabei aprendendo uma lição.

Por mais repetitivo que possa parecer o ato de se estar olhando as prateleiras de um sebo, elas nunca estão do mesmo jeito, podem parecer iguais, mas não estão.

Todo o colosso de letras compactadas em pequenos objetos literários esta em constante mutação.

Essa lição por sua vez esta amarrada a uma premissa que pode ser de grande beneficio ao iniciante freguês de um sebo. Encontrando o livro desejado, você se da conta que não tem nem um realzinho, vasculha seu bolso e tudo que encontra é o mesmo cartão de ônibus de sempre. Sem grana, mas sem crise. O dono do sebo esta acostumado a lidar com pessoas que procuram preço baixo, e por vezes sem grana alguma. Assim, peça para que o balconista o separe, amanhã você volta e pega.

Não existe nada mais frustrante que voltar e ver que seu livro foi vendido. E estando este pequeno mais numeroso universo de letras em constante renovação, faça de tudo para garantir o seu livro. É só uma liçãozinha.

Eu tenho sempre o habito de procurar um escritor que tenha me passado algo que eu não esperava receber, aquele que te liga pro resto da vida, consagrado ou novo este escritor dentro de um sebo se torna apenas mais um. Como temos a tendência de super valorizar nossas preferências, achamos um absurdo encontrar nosso preferido todo empoeirado.

Lembro-me que o primeiro que procurei foi Kafka. Encontrei-o em bom estado. Segurei em minhas mãos.“O processo” estava lá, soberano, imponente. Eu já tinha este livro.

Então, ele ficou lá por um bom tempo. Eu pensava “Esse povo não sabe oque esta perdendo”.

Ele era o único Kafka marcando presença, e eu nunca deixei de visitá-lo, folhá-lo.

Soa doentio, mas um dia decidi que iria comprar o livro. Pra minha surpresa ele não estava mais lá, havia sido vendido. Com todo o afeto que rolava entre mim e o livro achei que fosse pirar, mas não, ao contrario, fiquei feliz. Feliz por mim, feliz pelo cara que adquiriu o livro, feliz pelo próprio Kafka, por ter arrebatado mais um.

Passadas algumas semanas consegui encontrar outro livro do escritor, se chamava “A Colônia Penal”, uma edição mais antiga, bem legal. Mas só o encontrei porque passei em frente do “K” para ver se “O processo” havia voltado.   

 

Quando estiver lendo Kafka peça um café bem forte, afinal isto aqui é um café e você precisa estar ligado, boa leitura!!!
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Fuguet por atacado  (Crônica Sebólica) escrito em sexta 21 setembro 2007 19:04

Terminei a leitura do livro “Os Filmes de Minha Vida” de Alberto Fuguet. Foi numa dessas promoções em loja de departamento que o encontrei. O mais excitante de procurar livros com preços promocionais nestas lojas é o fato de que os livros geralmente são novos. Na maioria das vezes os mesmos livros custam três vezes o valor da promoção.Eu havia passado no trassudo sebo do centro, estava paranóico com a repetida cena de pessoas pelos cantos e bancos da cidade lendo “O Código...”você sabe. Amedrontava-me a possibilidade de algumas dessas pessoas formarem algum tipo de seita e tentarem me oferecer em sacrifício. Foi assim que cheguei ao sebo. Não tive muito tempo, uma garoa fina começou e caminhei rápido pro trabalho. Depois de dez minutos de caminhada o céu caiu de vez, me escondi na Americanas. O ar condicionado resfriava minha pressa. Sem muito pra se fazer me dirigi até seção de livros, minúscula.Uma coleção de livros da Ágata Christie, alguns pocket’s, livros de auto-ajuda e romances.A cobertura do shopping destroçava as gotas da chuva, e eu lia as sinopses tentando manter a concentração. Foi quando Alberto Fuguet pulou em minha frente. A sinopse muito bem apresentada por Joca Reiners Terron (Sonho Interrompido Por Guilhotina) me convenceu. Era o livro. Ainda sob forte chuva li as primeiras cinco partes. Um sismólogo contando como chegou ao ponto em que esta. E depois relatos de sua infância e os filmes de sua vida se encaixando em cada período.A chuva se foi. No caixa, o balconista olhou bem o livro, pensou um pouco.  Não se conteve.

Os filmes de minha vida, legalzinho este livro. (balconista)

  Olha, fiquei conhecendo agora. (eu)

 Eu também estou lendo um muito loco. (balconista)

  A é! Qual? (eu, já me arrependendo por perguntar)

  Um do Dan Brown, você conhece? (balconista com uma satisfação irritante)

Admito que fiquei feliz. Em um pais que se lê tão pouco, estes sucessos de publico talvez tenham certo mérito. Espero que o sujeito não fique pelo resto da vida enroscado com o código.Passadas algumas semanas eu continuei visitando esporadicamente a loja, sem nunca deixar o sebo. Não vou citar outros títulos aqui porque estes serão assuntos pra outras crônicas, vamos até o bom e velho sebo. Bem, passadas algumas semanas voltei ao sebo, uma correria daquelas, a preocupação com o horário do ônibus, uma classe inteira de alunos conhecendo o sebo, senhoras estacionadas em livros espíritas, professoras discutindo em roda matérias escolares e no meio de tudo isso, eu, tentando conseguir antes do meu horário explodir um livro. Olhando rapidamente as prateleiras, aquela, onde as professoras faziam roda, vi em destaque um nome.

BAIXO ASTRAL pensei, esse nome não me é estranho.E não era mesmo. Quando da compra de “Os filmes de minha vida” cheguei no escritório todo animado com a descoberta, imediatamente procurei na net assuntos relacionados. E este “Baixo Astral” era nada mais nada menos que o segundo livro de Fuguet.Pedi licença às pedagógicas professoras.O livro estava em ótimo estado, e embora o preço não fosse parecido com o da Americanas, na verdade era de longe mais caro, acreditem, mais caro. Acho que o valor deste foi compensado com o pago pelo primeiro. 

Os Filmes de Minha Vida -  R$9,90 - NA NET R$33,00

Abalado com a morte inesperada de seu avô, Beltrán Soler - um chileno de trinta e poucos anos - decide recordar cinqüenta filmes assistidos na juventude. Os filmes, cujos títulos dão nome aos capítulos do livro, suscitam lembranças que levarão Soler a revisitar as causas e efeitos que o transformaram no adulto que se tornou.

Baixo Astral – R$17,00 -  NA NET R$36,00

Sexo, cocaína e péssimo rock'n'roll movimentam esta viagem de um garotão chileno, em plena ditadura de Augusto Pinochet, às vésperas do plebiscito em que se aprovou a chamada "Constituição Pinochet", institucionalizando o regime militar, em 1980.          

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Onetti sem traças  (Crônica Sebólica) escrito em quinta 20 setembro 2007 18:01

Viagens sebolicas costumam nos surpreender. Recentemente estava eu em um sebo procurando algo velho novo, algum livro que tivesse passado desapercebido pelo mercenário dono do estabelecimento, ele, que já me proporcionou tantas alegrias com livros valiosos perdidos entre outros tantos. Ele tem como prazer maior separar em uma grande prateleira os livros tidos por ele como “fundamentais para formação do caráter da pessoa” nada contra.Uma semana antes eu havia separado o livro “Junta Cadáveres” de Onetti, não na prateleira, mas em minha memória. Não me contive, voltei para levá-lo. Para minha surpresa o livro não estava mais naquela prateleira alfabética. Olhei varias vezes e nada. Todos os “Os” da maldita prateleira eram vazios, não me serviam, estava obcecado por Onetti. E fiquei.Só restava uma alternativa, perguntar ao mercenas se ele sabia de Onetti.

Perto do balcão mais alguns livros em promoção amontoavam-se, dessas literaturas de cobradoras de ônibus, só sacanagem, embaladas em capas sensuais, essas mesmo, vocês com certeza já viram com alguma cobradora, ou com alguma coroa em fila de banco. Desviei-me. Perguntei sobre o livro. Ele pediu para que eu o acompanhasse ate o computador. Me perguntou o nome do livro e eu falei “J   U  N  T  A   C  A  D  A  V  E  R  E  S” que fique bem claro que eu jamais deixei transparecer o quanto estava preocupado com o fato de não conseguir o livro.

- Olha este livro estava até semana passada na prateleira errada.Disse o velho.- Eu reorganizei as prateleiras e coloquei-o na prateleira dos essenciais. Sabe como é, Onetti sai rápido. E este saiu no mesmo dia.

Falou o velho com a propriedade de um dono de sebo e com ares de “meu sebo é DU CA". Por isso um aviso a todos os leitores desta pequena tragédia urbana, “NUNCA” nunca subestime as estratégias de venda de um dono de sebo, mesmo a dos mais descuidados.Eles sempre podem te surpreender.Espero encontrar o comprador do livro numa destas esquinas ou mesmo em um ônibus. Alias, espero que seja uma cobradora. Que ela esteja se extasiando lendo aquele que um dia foi em minhas mãos, por breves minutos, meu livro. 

 

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