Foi um dia que lendo Ferreira Gullar, poema “Não Há Vagas” que fui movido a procurar alguma obra de referencia no sebo. Obra que não encontrei, diga-se de passagem. Mas acabei aprendendo uma lição.
Por mais repetitivo que possa parecer o ato de se estar olhando as prateleiras de um sebo, elas nunca estão do mesmo jeito, podem parecer iguais, mas não estão.
Todo o colosso de letras compactadas em pequenos objetos literários esta em constante mutação.
Essa lição por sua vez esta amarrada a uma premissa que pode ser de grande beneficio ao iniciante freguês de um sebo. Encontrando o livro desejado, você se da conta que não tem nem um realzinho, vasculha seu bolso e tudo que encontra é o mesmo cartão de ônibus de sempre. Sem grana, mas sem crise. O dono do sebo esta acostumado a lidar com pessoas que procuram preço baixo, e por vezes sem grana alguma. Assim, peça para que o balconista o separe, amanhã você volta e pega.
Não existe nada mais frustrante que voltar e ver que seu livro foi vendido. E estando este pequeno mais numeroso universo de letras em constante renovação, faça de tudo para garantir o seu livro. É só uma liçãozinha.
Eu tenho sempre o habito de procurar um escritor que tenha me passado algo que eu não esperava receber, aquele que te liga pro resto da vida, consagrado ou novo este escritor dentro de um sebo se torna apenas mais um. Como temos a tendência de super valorizar nossas preferências, achamos um absurdo encontrar nosso preferido todo empoeirado.
Lembro-me que o primeiro que procurei foi Kafka. Encontrei-o em bom estado. Segurei em minhas mãos.“O processo” estava lá, soberano, imponente. Eu já tinha este livro.
Então, ele ficou lá por um bom tempo. Eu pensava “Esse povo não sabe oque esta perdendo”.
Ele era o único Kafka marcando presença, e eu nunca deixei de visitá-lo, folhá-lo.
Soa doentio, mas um dia decidi que iria comprar o livro. Pra minha surpresa ele não estava mais lá, havia sido vendido. Com todo o afeto que rolava entre mim e o livro achei que fosse pirar, mas não, ao contrario, fiquei feliz. Feliz por mim, feliz pelo cara que adquiriu o livro, feliz pelo próprio Kafka, por ter arrebatado mais um.
Passadas algumas semanas consegui encontrar outro livro do escritor, se chamava “A Colônia Penal”, uma edição mais antiga, bem legal. Mas só o encontrei porque passei em frente do “K” para ver se “O processo” havia voltado.
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